OS NOVOS MAGOS
Os magos existem desde que o homem tomou consciência de si próprio, como fazendo parte de um Universo misterioso. No princípio dos tempos, e na ausência de respostas para questões que hoje consideramos óbvias e do senso comum, os primeiros seres pensantes entregaram-nas a entidades divinas, a quem atribuíram nomes e funções específicas na Ordem. Chamaram-lhes guardiões, protectores, carrascos…
A determinada altura, esses seres terão sentido que faziam parte desses mistérios. Como tal, ter-se-á deixado envolver por eles e começado a entender que a resposta para o sentido da sua presença neste mundo se cruzava com o sentido da existência desse Universo. Afinal de contas, as respostas ao sentido da vida – da natureza e de tudo o que dela fazia parte, inclusive os homens – estava em cada um deles e nada estava dissociado. Tudo estava em equilíbrio, desde que cada um cumprisse a sua função no grande ciclo da vida.
Os mais atentos e sensitivos destacaram-se, então, das funções dos restantes e dedicaram-se exclusivamente à sua compreensão, iniciando outros na explicação dos mistérios e do seu poder, em simultâneo com o indissociável respeito pelos mundos que os envolviam, desde os visíveis aos invisíveis.
Mas a natureza do ser Homem/Mulher evoluiu. E a par da evolução do conhecimento, desenvolveu-se também o sabor do poder que aquele trazia e, com ele, a tentação do controlo. Também os conhecedores das forças que geriam os mundos cederam, isolando-se na permanente aprendizagem e guardando para si as informações. No entanto, alguns, conscientes de que, tal como o Universo, tudo está em constante mudança, tudo tem dinâmicas permanentes - ou não tivesse o mesmo Universo vida própria - mantiveram-se à margem desse poder, respeitando a sua mutabilidade.
Intermediários entre o mundo físico e o espiritual, xamãs, feiticeiros/as, bruxos/as, sacerdotes, sacerdotisas, magos/as… todos evoluíram como quaisquer outros seres humanos, ao sabor da evolução da História da própria Humanidade, fazendo as suas próprias escolhas, sofrendo das mesmas influências.
A Bíblia, ao longo do Antigo Testamento, descreve alguns como profetas – seres guiados pela vontade do Divino, portadores das Suas mensagens, capazes de realizar proezas, inclusive de manipular a própria natureza. Na história das Grandes Civilizações, há referências a conselheiros sábios, com respostas intuídas no mundo espiritual, indispensáveis mesmo para os grandes líderes.
Na literatura menos polida pelas amarras das religiões, de todos os continentes, chegam-nos histórias de sacerdotes e sacerdotisas, vivendo em plena harmonia com os segredos da natureza, ocupando, cada um, um lugar específico na guarda dos poderes inerentes a todos e, em particular, àqueles que se dispunham a aprendê-los. A cristandade fanática - descendente, ela própria, do testemunho de um homem que lembrava que o poder estava em todos, sem excepção – encarregou-se de “disciplinar” este quadro. Um pouco por todo o mundo, a voz de profetas, feita Lei por quem a achou conveniente para a uniformização, ditava que o poder divino estava agora na posse de alguns eleitos, assim como a explicação dos mistérios. A consciência de que esse conhecimento pertencia apenas a alguns “iluminados” manteria, assim, a maioria da humanidade na mesquinhes, deixando a responsabilidade da condução das suas vidas nas mãos desses inquestionáveis “poderosos”.
Instalou-se, assim, o medo, mas também o conforto de que forças incontroláveis e incontornáveis conduziam a vida de cada um. E porque perdeu esse respeito por si próprio, esqueceu o respeito pelos mundos envolventes.
O tempo e a história seguiram o seu rumo mas, um pouco por todo este planeta, guardiões dos mistérios foram discretamente passando o testemunho, na certeza de que um dia eles seriam cruciais para a continuidade da Humanidade. No gelo dos Pólos, nas florestas e desertos da América do norte e do sul, Oceânia e Ásia; nas savanas de África, no que resta da Europa, por esses oceanos… esses guardiões aguardam, geração após geração.
Por cansaço; por efeitos da deriva a que esse comportamento tem conduzido a humanidade; por que o mais poderoso guardião do universo – a Natureza – mostrou sinais de desgaste, projectando-o nos seres que dela dependem, nos últimos anos eles têm-se revelado. Chamam-lhes os novos magos. Por todo o mundo, estes alertam para a necessidade de cada ser humano encontrar a força do mistério (ou da fé) em si mesmo, como a última esperança para a sobrevivência.
Mas a história repete-se, porque a natureza humana se repete. Por isso, mais uma vez, alguns vão centrando em si mesmo o conhecimento, na expectativa do brilho pessoal. E, de novo, a tentação do poder. O fanatismo explode por todo o lado, numa tentativa desesperada de o suster. Mas até este está contagiado por um processo que parece não querer parar de crescer, abrindo brechas insanáveis.
É que os tempos são outros e os mundos aproximam-se. O conhecimento está a chegar ao alcance de muitos, mesmo daqueles que não o procuram. Até estes vão sendo levados na corrente e, quando se debatem, afundam-se. Então, sendo estes tempos de esperança desesperada, é da responsabilidade de quem detém a informação sobre os mistérios partilhá-la, resgatando os náufragos dessa violenta corrente, que, por sua vez, resgatarão outros, pelo regresso ao equilíbrio entre o Todo. Essa é a função dos Novos Magos.
R.S. – Rosa Silva